2013/04/10

CARTA A UM AMOR QUE SE FOI




Meu amor
Como sempre digo que não te escreverei mais e acabo voltando a escrever. Agora demorei um pouco mais. Achei que não tinha mais sentido escrever, mas como antes, tenho aquela sensação de escrever para mim mesma. Sinto-me terrivelmente sozinha. No começo não conseguia acreditar que tinhas me deixado. Fiz uma porção de coisas esperando que voltasses. Foi uma dor tão grande que me deixava anestesiada e eu nem sentia mais nada. Quase me joguei fora... sentia-me culpada... se eu me punisse talvez te teria de volta. Ninguém conseguiu me ajudar... não se pode ajudar alguém perdido em si mesmo. A única companheira que permaneceu fielmente neste tempo todo foi a solidão. No começo ela era sinistra, escura, densa, pesada, até sarcástica. Ficava de vigília e me roubava a sanidade. Ficava dor latente. Física. As pernas adormeciam... a cabeça ficava vazia. Depois ela começou a dar tréguas. Deixava espaço para o seu lado melancólico. Então juntavam-se a tristeza e a auto piedade... e sabes do meu horror a auto piedade. Então descobri cascas. E me vestia delas... algumas vezes várias delas. Fui me desfazendo de ti no meu cotidiano na tentativa de diminuir a dor. Ela não diminuiu... mas cada etapa foi mostrando que só em mim tinhas ficado... que só o meu amor por ti mantinha-te vivo em mim... e fui preocupando-me tanto em desfazer-me de ti para não sofrer que acabei desfazendo-me de mim ao mesmo tempo... cada passo que eu tentei dar pra longe de ti  afastou-me de mim mesma. Sei agora que não posso querer tirar-me do meu mundo para te esquecer... nem deixar-te naquela gavetinha no cantinho do meu coração... preciso deixar-te a mostra. Preciso da tua presença para poder te deixar ir... preciso que estejas aqui para que eu me separe de ti. Até a dor amadurece... Sinto que não tenho que  te separar de mim... nem te tirar daqui... nunca vais embora... nunca vais me deixar... porque fazes parte de mim... seremos eternamente nós dois dentro de mim. Desobrigo-me a te esquecer. Isso alivia... finalmente alguma coisa alivia.

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