2013/06/26

TUA CHEGADA








penso acostumar-me ao outono
e me vens desaninhar-me
qual raio de sol
quente e forte
trazendo de um verão esquecido


em que pretexto te fazes presente
no adejo  que me envolvo
traz-me os galhos floridos
quando não mais pensava em primaveras

debato-me num voo tímido
em hibernal mergulho
e me dissimulas teus desejos
mas esperança-me o coração

2013/06/23

NA IMPOSSIBILIDADE DA FUGA



pingava o primeiro pingo
e ela passou brejeira
saia rodada
pés descalços
vasta cabeleira

voava a primeira folha
e ela assustada
os olhos em pranto
a boca sem canto
coluna emperdigada

sorria o primeiro sorriso
e ela sentiu
mãos postas sobre o colo
joelhos sobre o solo
meu abrigo pediu

e veio a tempestade...

SAUDADE



encantaria a mim
lendo teus poemas
sentada ao sol na varanda
com os olhos encharcados
das tuas emoções
e a boca bordada
num sorriso doce
a lembrar-te.

DE POUCA FÉ




ri-me sozinha
ao ver aproximarem-se de mim
simpáticas senhorinhas
as vezes de chapéu
as vezes não
com olhos penalizados
e sorrisos amáveis
a oferecerem-me panfletinhos
...agora folders...
coloridinhos e de letrinhas miúdas
com mãos geladas e palavras de excusas
com o cuidado de quem aproxima-se de vaso encristalado...
leio-as com o humor da tolerância
em que descrevem o céu e o inferno
que serei salva com minha benevolência
e meu conformismo
mal sabem elas que não me é preciso acalmar
meu passo
o que inquieta-me
é minha alma
as vezes angelical
as vezes profana
força meu corpo
às loucuras da vida
e de nada me privo
pois que esta inquietude
leva o corpo sequelado
a andar por pelo menos
o dobro do que elas andaram.

2013/06/22

PRECISAVA GUARDAR ESTE PRESENTE....






lindo meu poeta....



O PRESENTE
Gilberto Wallace Battilana

Surgiste tal um presente trazido pela sorte
no vento do tempo que voa,
avançaste pelas rupestres rotas dos meus sonhos
trazendo no teu rosto as rosas rubras do amor
e no teu corpo a fragrante paz de uma lua entre jasmins.
Por que não te conheci antes, para viver um amor assim,
com a tranquilidade de um sonho sem sono
na claridade da tua pele, nada em ti é obscuro,
que doce beijo trazes nos teus lábios limpos
de qualquer impureza, em ti tudo é beleza
que me comove e invade com a tua alegria
a minha vida, essa tristeza sombria.
Me farás dizer: sou feliz,
o que durante a minha vida sempre quis?
Encontrarei contigo os felizes dias aprazíveis
que até agora me foram interditos, indizíveis?

2013/06/21




diz-me que me amas
digo-te que te amo

e logramo-nos neste equívoco

busca-me ajeitar em teus sonhos
com a astúcia de um mágico

enquanto meus créditos finitos
põem-me a teus pés.





deu-se a ganir com energia
em meio as trevas da noite
fosse selva fosse lobo
e o estranhar perderia

ESPIONAGEM





sem poesia
no coletivo e só
espia as árvores do parque
na busca por um poeta



perdi-me no farol
tateei no caminho
desfiz-me nas trincheiras
escorracei o sentinela
expus-me ao ridículo

quase letal
foi-me este passo...
mesmo agora passado
sinto cheiro encarniçado



ó chuva
que despencas
impiedosa e cruel
sobre os telhados letárgicos
levas de mim
este mal...

2013/06/19

versão 2




suicídio

de repente a porta abriu-se
e ele lançou-se no ar feito um pássaro

se olhos tivesse
seriam misto
de arrependimento e desespero
se boca tivesse
seria um grito alucinante
e os braços
se os tivesse
seriam súplicas

cortou o ar
em linha curva
e espatifou-se no chão

pobre copo...

2013/06/17

DECIFRA-ME OU DEVORO-TE





ESFINGE DE CRISTAL
Gilberto Wallace Battilana

A minha mão entre a tua saia e a tua pele
me causa a mesma sensação de quando roço o papel
acariciando o poema. O mais puro prazer sensual
se faz pensamento em busca da beleza
numa contemplação, atenta surpresa
e beijo a tua boca, tateio o teu seio,
procurando no poema o veio racional.
Avanço, no duplo jogo, desdobramento natural,
no qual, nem o que me sobra me é alheio,
quero mais, sem desistência,
minha vontade perseguindo o verso
e revelando a mulher, paradoxal
fotografia captada pelo poema
numa aparente incoerência,
regras e estruturas, ritmos e imagens, desenham
a descoberta da arquitetura do teu corpo,
esfinge de cristal.




sempre sofrendo
antes porque te perdia
agora porque estás me perdendo

DESENCONTRO



naquele momento
ela o amava
ele queria ser livre

e se fez luz
e desfez-se dela
como se sombra ela fosse

e se fez pássaro
e desfez-se dela
como se gaiola ela fosse

e se fez nuvem
e desfez-se dela
como se chuva ela fosse

ela ficou no vazio do tempo
enquanto ele era feliz